Eu já falei sobre as diferenças entre Ilustrador e Desenhista antes. Mas relendo a obra de Andrew Loomis, encontrei alguns pontos que mereciam exclarecimento. A obra de Andrew Loomis já é um clássico para todo ilustrador ou estudante de ilustração a procura de aperfeiçoar sua técnica. “Creative Illustration”, é uma obra direcionada a ilustradores, destacando-os dos meros desenhistas por sua habilidade em interferir na sua representação da realidade. Nele Loomis diz:
“Uma coisa é desenhar uma figura bem, mas é outra bastante diferente, desenhar uma figura em um ambiente convincente, fazendo-a contar uma história e dando a ela personalidade e interesse dramático.”
Ao ilustrador não cabe apenas a reprodução do que é visto, mas sim a proposital manipulação da cena, melhorando-a para melhor comunicar uma idéia. Fica claro pelas palavras de Loomis que o ilustrador submete o seu desenho a idéia, e não o contrário, mas ele deixa claro que a busca pela própria voz é um caminho pessoal e não pode ser inteiramente conduzida por terceiros.
“Não existe fórmula certa para o sucesso. Mas existem inquestionáveis formas de proceder que podem contribuir para um grande trabalho. Algo como uma fórmula poderia ser possível se o personagem, a apresentação técnica e a capacidade emocional do indivíduo não fosse parte do resultado final. Por essa razão, arte não pode ser reduzida em fórmulas exatas desprovidas de personalidade. Se desprovida de personalidade, a arte criativa não tem a menor razão de existência. De fato, a expressão individual é seu grande valor, as coisas que a sustentam podem ser realizadas por meios mecânicos. Eu não pretendo lutar contra a câmera. Mas estou alegando que mesmo com sua perfeição, o real valor da fotografia é a percepção individual do fotografo e não sua somente sua excelência técnica.”[grifo meu]
Embora o assunto do trecho seja a ilustração, achei importante destacar a visão de um ilustrador publicitário sobre o que é importante, inclusive na fotografia. Em tempos de câmeras digitais em celulares e centenas de fotógrafos amadores espalhados pelo mundo é importante encontrar um ponto sobre o qual se apoiar na hora de separar o jóio do trigo. As câmeras fotográficas de hoje em dia são capazes de tirar dos ombros do fotógrafo qualquer inabilidade técnica, mas nenhuma delas é capaz de dar ao fotógrafo o olhar necessário para produzir uma boa fotografia.
“Tão longe quanto concerne a você e ao seu trabalho, a vida é linha, tom, cor e design – mais seus sentimentos sobre isso.”
“Desenhar por mera duplicação é uma pequena parte disso [da arte]. Você poderá faer isso melhor com uma câmera. Desenhar como um meio de expressão é a justificativa da arte acima da fotografia. Diretores de arte me disseram que usam fotografia apenas por causa da mediocridade dos artistas disponíveis. A demanda por bons trabalho excede a oferta.”
Andrew Loomis foi um dos grandes ilustradores da década de 50. De lá até os dias de hoje muita coisa mudou, infelizmente não para os ilustradores. A quantidade de fotógrafos aumentou consideravelmente e embora os bons ilustradores tenham se multiplicado, a demanda por seus serviços continuou crescendo. Infelizmente o padrão de qualidade dos diretores de arte não acompanhou o crescimento do mercado o que deu chance aos maus ilustradores de abocanhar boa parte das oportunidades, derrubando preços, poluindo o mercado e criando todo um efeito cascata que parece longe do fim. Mesmo assim, acho esse comentário de Loomis tremendamente atual. No dia-a-dia de agências de publicidade e editoras, muitas vezes vemos a necessidade de se substituir uma ilustração por uma fotografia – original ou de banco de imagens – simplesmente porquê existem poucos ilustradores capazes de entregar o necessário.
“Raramente um diretor de arte prefere uma foto ao invés de uma bem-executada pintura. Se nós queremos seguir com o barco, aumentando o volume de boa arte para algo proporcional a fotografia, nós não faremos isso através da imitação da fotografia, nem através de grande habilidade técnica. Faremos isso através do grande âmbito da imaginação dos artistas.”
A manipulação fotográfica aproximou ainda um pouco mais o ilustrador do fotografo. As múltiplas possibilidades de edição, desobrigaram a fotografia de representar o real e balizou a existência de um novo tipo de profissional especializado em diminuir as barreiras entre realidade, fotografia e imaginação. Freqüentemente estes profissionais são chamados de ilustradores digitais, deixando claro sob qual ponto eles se escoram.
Mas a batalha de Loomis não é contra fotografos e ele mal podia imaginar o que a computação gráfica faria com os ilustradores. Sua luta é em defesa da ilustração desvinculada da técnica contra os desenhistas e reprodutores.
“O desenho pelo desenho, apenas, não é muito difícil. Desenho, na maior parte é colocar um contorno na proporção e espaçamento corretos. Espaços podem ser medidos e existem formas simples de medí-los. Qualquer linha ao redor de um contorno pode ser corretamente espaçada. Você pode medir por uma cópia, medir pelo olho, ou projetar isso e ter esse tipo de desenho. Mas o desenho real é uma interpretação, seleção e uma representação do contorno com grande possibilidades de significado.”
Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento e alguns programas básicos, hoje em dia é capaz de copiar algo. Multiplicam-se os ilustradores que não fazem mais do que vetorizar sobre fotos ou aplicar meia dúzia de efeitos em uma imagem para apresentar ao “cliente” o que ele chama de arte. Nada contra esses profissionais, desde que eles não se agarrem apenas nestes conhecimentos técnicos. Aplicando a mesma lógica que antes foi aplicada aos fotógrafos, Loomis separa os ilustradores dos mero reprodutores técnicos de forma simples e muito bem colocada. O ilustrador não deve se apoiar em sua técnica, mas sim em seus conceitos.
“Até o artista começara pensar em linha, pensar em expressar dessa forma o que ele quer dizer, ele não deve elevar-se muito acima do pantógrafo, projetor ou outro aparelho mecânico. Como ele pode esperar ser criativo se ele é inteiramente dependente destes aparelhos? Pesquisar o seu uso no lugar de se expressar desenhando é uma confissão de falta de fé em sua habilidade. Ele precisa fazer sua própria interpretação, mesmo que não tão literalmente exata, sendo sua única chance de ser original para ultrapassar centenas de outros que também sabem usar aparelhos mecânicos. Mesmo um desenho pobre, mostrando inventividade e alguma originalidade é melhor do que centenas de traços projetados.”
Andrew Loomis não tem publicação no Brasil. Todos os textos aqui reproduzidos são traduções minhas e eu assumo qualquer culpa por eventuais rusgas ou desentendimentos.
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